Sexta-feira, Março 31, 2006
PG do sábado passado na casa da Ana(Carol)
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Expectativas... tudo culpa delas....
Mas estou muito cansada pra pensar nisso...
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Quinta-feira, Março 30, 2006
É lá que eu gostaria de estar agora. Esta semana foi especialmente difícil, três dias e duas noites acompanhando meu pai no hospital me deixaram exausta! Dormi 12 horas de ontem pra hoje, mas parece que ainda não descansei o suficiente...
Foi um susto e tanto. Mas ele está bem agora, em casa, cercado pelos paparicos da minha mãe.
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Observatório da imprensa
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PALAVRÕES TAMBÉM SÃO IMPORTANTES
(Pedro Ivo Resende)
Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.
É o povo fazendo sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia. Sem que isso signifique a "vulgarização" do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.
"Pra caralho", por exemplo.
Qual expressão traduz melhor a idéia de muita quantidade do que "Pra caralho"?
"Pra caralho" tende ao infinito, é quase uma expressão matemática. A Via-Láctea tem estrelas pra caralho, o Sol é quente pra caralho, o universo é antigo pra caralho, eu gosto de cerveja pra caralho, entende?
No gênero do "Pra caralho", mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso "Nem fodendo!".
O "Não, não e não!", assim como o "Absolutamente Não" já soam sem nenhuma credibilidade.
O "Nem fodendo" é irretorquível, e liquida o assunto.Te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida. Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência.
Solte logo um definitivo Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!".
O impertinente se manca na hora e vai pro Shopping se encontrar com a turma numa boa e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Caetano Veloso.
Por sua vez, o "porra nenhuma!" atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em profissional nosso cotidiano.
Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um "é PhD porra nenhuma!", ou "ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!". O "porra nenhuma", como vocês podem ver, nos provê sensações de incrível bem estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.
Há outros palavrões igualmente clássicos. Pense na sonoridade de um "Puta-que-pariu!", ou seu correlato Puta-que-o-pariu!", falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba. Diante de uma notícia irritante qualquer um "puta-que-o-pariu!¿dito assim te coloca outra vez em seu eixo.
Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou o safar de maiores dores de cabeça.
E o que dizer de nosso famoso "vai tomar no cu!"? E sua maravilhosa e enforcadora derivação "vai tomar no meio do seu cu!". Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável! , se dirige ao canalha de seu interlocutor e solta: "Chega! Vai tomar no meio do seu cu!".
Pronto, você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e saia à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-íntimo nos lábios.
E seria tremendamente injusto não registrar aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: "Fodeu!". E sua derivação mais avassaladora ainda: "Fodeu de vez!". Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando você parar:
O que você fala? "Fodeu de vez!".
Sem contar que o nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de "foda-se!" que ela fala.
Existe algo mais libertário do que o conceito do "foda-se!"? O "foda-se!" aumenta minha auto-estima, me torna uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Me liberta.
"Não quer sair comigo? Então foda-se!". "Vai querer decidir essa merda sozinho (a) mesmo? Então foda-se!". O direito ao "foda-se!" deveria estar assegurado na Constituição Federal.
Liberdade, igualdade, fraternidade e Foda-se!
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Quinta-feira, Março 23, 2006
Dá pra acreditar que isso existe?
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Quarta-feira, Março 22, 2006
Às vezes me sinto patética.
E culpada, o que é pior.
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Quando não se sabe para onde se vai, nunca se vai muito longe.
(Goethe)
O primeiro dever da inteligência é desconfiar dela mesma.
(Einstein)
Escuto e esqueço; vejo e recordo; faço e entendo.
(Tao Te King)
Um homem que nunca muda de opinião, em vez de demonstrar a qualidade da sua opinião demonstra a pouca qualidade da sua mente.
(Marcel Achard)
À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás.
(M. de Montaigne)
Não há maior prova de ignorância do que acreditar que o inexplicável é impossível.
(S. Bilard)
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ADOTE!
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Terça-feira, Março 21, 2006
Sim, ela me tira do sério! Não tive a brilhante idéia de colocar um espelho na sua frente, pena, talvez ela se assustasse com a intensidade de sua expressão de raiva. Não, de raiva não, de cólera. Como pode alguém, do nada, começar a gritar com aquela expressão no rosto??? Eu sei, eu sei, diriam vcs "mas ela não é uma psicótica?". Não, não é, o diagnóstico é apenas G 40, epilepsia.
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"Quando uma pessoa amadurece, aprende a aceitar a vida como ela é. E, graças a essa aceitação, ela se fortalece, podendo então fazer as escolhas certas."
GuruWeb
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Segunda-feira, Março 20, 2006
Me emprestaram o livro do Morris West chamado "Um mundo transparente", e disseram que eu iria gostar. Deixei-o na minha cabeceira pois não tinha olhos pra mais nada além do meu projeto, até que uma noite resolvi folheá-lo. Trata-se de uma espécie de ficção realidade sobre o JUNG. O autor baseia-se nos diários do Jung e anotações do caso de uma paciente e compõe uma história muito instigante. O Jung como vc deve saber parece ter tido uma espécie de surto e manteve-se relativamente lúcido durante a fase mais crítica de sua vida. É sobre esse período que fala o livro, ele relata alguns sonhos, bem como os de sua paciente.
Ando bastante perturbada com o livro, tentando lembrar dos meus sonhos, avaliando a forma inacreditavelmente honesta como ele se expõe nos diários e me questionando bastante acerca dos meus propósitos de vida...
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Domingo, Março 19, 2006
Eu sabia o porquê da minha resistência em entrar nesses blogs e nas comunidades do Orkut pró-ana e pró-mia (pra quem não está familiarizado com os termos, estão relacionados à anorexia e bulimia), eu sabia e agora tive certeza. Eu passo mal, não consigo entender como uma pessoa pode ficar sem comer... por vontade própria! Eu, vice presidenta da PG, comunidade que cultua o prazer de comer e de estar entre amigos...
É estarrecedor o que se lê e vê por aí... imagine alguém chegar a 35 kg com 1,70 de altura! E o pior é que elas acham isso o máximo! Quanto mais eu estudo, leio, trabalho, menos eu entendo...
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Respeito
Sem o respeito, a confiança não pode nascer.
(esse é um dos princípios dos judocas, que deveria ser válido para todas as pessoas)
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Sábado, Março 18, 2006
Praticamente tudo me chamou a atenção neste quadro. Em primeiro lugar pelo seu tamanho, é uma tela grande. Depois as cores, tons pastéis, um verde piscina de fundo que é lindo! A tela inteira parece mover-se.
Há um círculo no centro e no alto que sugere o planeta Terra apoiado em uma complexa construção, de sustentação aparentemente frágil (o equilíbrio é que é frágil). Parece dinâmico, parece que a qualquer instante a configuração das "peças" dentro do quadro vai mudar.
Trazendo um pouco a análise para o plano pessoal creio que a tela trouxe uma identificação com o meu momento. É uma expressão que se pudesse, a teria feito. Mas não fui eu quem a pintou. Talvez por isso me provoque reflexões. Sinto meu processo de amadurecimento suave como o quadro. Sei que o equilíbrio é momentâneo e é bom que assim seja.
Olhando de novo vejo um cavalo com as pernas dobradas, como se tentasse se reerguer. Naturalmente é uma interpretação muito particular. Ele se ergue com o "globo" sobre a cabeça. Há algo de fascinante em suas patas, um azul turqueza permeia essa região. É a única cor forte na tela, a que mais chama a atenção.
"Viajei" agora e lembrei do Don Quixote. Há algo de sonhador também na figura. Ela já adquiriu forma, não é mais apenas um amontoado de cores jogadas em uma tela exposta.
E tenho a impressão de que se eu ficasse aqui a tarde inteira olhando para ela, muitas associações entre sentimentos e imagens já conhecidas se dariam de forma mais consciente.
Me pergunto o que sentia a Yolanda ao pintar, o que acontecia com ela naqueles dias de elaboração da tela. Talvez estivesse também (como eu) imersa no caos, mas o visse como algo positivo. A tela transmite a sensação de movimento. De novo: passa um equilíbrio momentâneo, como se fosse o retrato instantâneo de algo que está em movimento.
Em algumas partes da tela tenho a impressão de que houve uma sobreposição de cores. Camadas de tinta que revelam acúmulo de experiências? Uma deixando entrever o que está abaixo da sua superfície (?). Devo estar racionalizando muito o que vejo, talvez esteja só esmiuçando as sensações. de qualquer forma sinto que algumas indagações me afastam da imagem, das cores, da sensação inicial.
(...) consegui olhar para um quadro com o objetivo de desvendar o porquê de ele ter chamado a minha atenção. E é gostoso ir relacionando-o ao meu movimento interno. É bom olhá-lo de novo e não apenas passar os olhos pelas formas como quem olha uma construção imaginando que já sabe o que tem dentro dela.
(texto escrito em maio/97 para uma disciplina da faculdade)
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Yolanda Mohalyi - Em Alguma Parte, 1970 - Óleo s/ tela - 175 x 150 cm
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"Sua visão se tornará clara somente quando você puder olhar dentro de seu próprio coração. Aquele que olha para fora sonha, aquele que olha para dentro desperta".
Carl Jung
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Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo.
(tb dele)
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Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer este devagar...
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
Fernando Pessoa
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Descobertas de uma recém dona de casa
É impressionante o poder do molho de tomate! Tanto de tingir Tupaweres quando de marcar com cheiro forte característico, tudo por onde passa...
É tb impressionante como o trabalho doméstico NÃO tem fim! Finjo que não vejo a poeirinha embaixo da estante, mas não consigo me fazer de desentendida por muito tempo...
Ovos (de galinha) duram mais que o prazo escrito na caixinha, não é? Mas quanto? Ok, eu posso abri-los e verificar. A questão é quando se tem uma caixa inteira na geladeira com o prazo supostamente vencido e se resolve fazer um bolo, compro outra caixa antes de começar a misturar os ingredientes? Pq parar a massa no meio não dá.
Após 3 meses começo a pereceber um fato curioso: quando estou sozinha em casa eu praticamente não como nada. E tudo estraga na geladeira... Uma amiga não se conforma com os chocolates quietinhos no armário, sempre que vem aqui me pergunta se aquele bombom ainda é "aquele". Sim, é aquele, quer? E pra quem não me conhece, não custa informar, eu não tenho absolutamente nada de anoréxica.
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Domingo, Março 12, 2006
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Eita mundinho pequeno que a gente pode criar pra gente...
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Cheiro de Leoa
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Eu poderia fazer uma lista grande dos últimos filmes que assisti, comentá-los. Poderia escrever um pouco sobre como é cuidar de tudo sozinha (compras, cozinhar, limpeza, contas...). Sobre o dilema: ter ou não, um gato. Mas estranhamente eu me recolho. Lado Ogro ativado? Acho que não é só isso.
Vcs assistiram Match Point? Minha supervisora fez uma observação que deu nome a um sentimento estranho que tive em relação ao filme... ele, o personagem do Rhys-Meyers, é perverso. Perversão é um tipo de caráter que sempre foi difícil de entender. Só levar em conta o próprio desejo... Fazer as coisas sem se importar com o outro... Me assusta e faz com que eu repense as pessoas com quem me relacionei e me relaciono...
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Estranho como depois de algum tempo, com ou sem contato, se pode ter a estranha sensação de que vc não conhece mais (ou pior, nunca conheceu de verdade) aquela pessoa...
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Sexta-feira, Março 10, 2006
O filme estava mesmo interessante...
Agora já mudou tanto...
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Quarta-feira, Março 08, 2006
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Puta chuva!!! fiquei ensopada em menos de 40 segundos...
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Domingo, Março 05, 2006
Visitando blogs amigos
Mulherzinha
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Quinta-feira, Março 02, 2006
A vergonha de ser pobre - CONTARDO CALLIGARIS
Em princípio, a vergonha que sentimos por um ou outro de nossos atos não nos exclui da convivência social.
Ao contrário, ela nos convida a resgatar nossa dignidade com novas ações e a voltar para o mundo de cara lavada.
Mas há uma outra vergonha, radical, que pode nos afastar da coletividade, sem retorno: é a vergonha de quem somos, não de algo que fizemos.
Os crimes infamantes, "hediondos", por exemplo, são atos que jogam uma sombra sinistra e quase definitiva sobre o réu. Nossa sociedade parece pedir, nesses casos, uma vergonha radical, que afete não tanto o crime quanto o próprio "ser" do culpado. Um protótipo, imortalizado pelo romance de Nathaniel Hawthorne, "A Letra Escarlate", é a punição da adúltera por uma letra inscrita em seu corpo; outro é o costume islâmico de cortar a mão de quem rouba. Em ambos os casos, a punição é uma marca indelével: a vergonha não é apenas relativa aos atos, ela é um estigma duradouro que identifica e exclui quem errou.
Mas não é preciso procurar tão longe: as dificuldades de qualquer ex-presidiário que queira refazer sua vida mostram que, mesmo na administração ordinária de nossa justiça, uma vergonha radical e excludente pode ser parte da punição.
Acaba de sair em livro de bolso "Hiding from Humanity: Disgust, Shame, and the Law"(escondendo-se da humanidade: desgosto, vergonha e a lei), de Martha Nussbaum, professora de ética da faculdade de direito da Universidade de Chicago (a primeira edição é de 2004). Nussbaum mostra que uma vergonha radical ainda produz exclusão nas sociedades modernas. Há a vergonha dos criminosos que pagaram sua dívida com a sociedade, mas continuam manchados por uma aura de infâmia, assim como há a vergonha dos negros, das minorias sexuais, dos incultos, dos miseráveis, dos gordos ou dos fumantes.
A crítica de Nussbaum (que retoma um clássico da sociologia dos anos 60, "Estigma, notas sobre a manipulação da identidade deteriorada", de Erving Goffman) baseia-se num grande princípio da moral moderna: nossa vida é livremente inventada e reinventada por nossos atos, portanto, nossos atos podem ser punidos e envergonhados, mas nunca deve ser envergonhada e estigmatizada nossa "essência".
Há também uma razão pragmática para criticar a vergonha radical e excludente. James Gilligan, professor de psiquiatria da universidade Harvard, pesquisa os efeitos sociais da vergonha que exclui. Um bom resumo de seu trabalho é o artigo "Shame, Guilt, and Violence" (vergonha, culpa e violência), publicado num número especial sobre vergonha de "Social Research", vol. 70, nº 4, 2003.
Desde 1975, as pesquisas de Gilligan mostram que a maioria dos atos criminosos encontram sua motivação no sentimento de humilhação. A perda de dignidade ameaça o sujeito com a perspectiva de uma morte mais cruel do que a morte de seu corpo: uma morte simbólica, que torna vergonhosa sua simples existência. Essa vergonha radical evoca o desamparo de um recém-nascido que não fosse acolhido no mundo por amor algum.
Para Gilligan, a miséria, em si, não é nunca causa da violência, mas a coisa muda se ela for acompanhada pela exclusão social: a vergonha de ser excluído fala mais alto do que os freios morais. Qualquer ato é possível na tentativa desesperada de exigir o respeito dos outros: "Se eles percebem que não têm meios não violentos de se tornarem independentes e de tomar conta de si mesmos (habilidades, educação e emprego), a atividade e a agressividade estimuladas pela vergonha podem se manifestar em comportamentos violentos, sádicos e mesmo homicidas".
Conseqüência: um sistema penal humilhante, que desacate a humanidade de seus condenados, só produz neles a necessidade de voltar a impor respeito pela violência de seus atos.
Outra conseqüência: uma coletividade pode conviver em paz apesar de grandes diferenças sociais e econômicas, mas à condição que ela não exclua e envergonhe uma parte de seus membros.
Ora, na semana passada, concluí minha coluna observando o seguinte: uma "elite" insegura, decidida a confirmar sua legitimidade ostentando e esbanjando, transforma a pobreza do povo em motivo de vergonha e exclusão, ou seja, induz o povo a sentir vergonha de sua própria condição.
A conclusão fica com Yuri Lotman, o pai da ciência dos signos, num breve ensaio, "Semiótica dos Conceitos de Vergonha e Medo", que me foi oportunamente lembrado por uma leitora, Ude Baldan (em português, o texto está nos "Ensaios de Semiótica Soviética""). Lotman afirma que é possível organizar uma coletividade ao redor do medo (medo da punição, medo dos invasores, medo da violência etc.), mas seria uma coletividade animalesca: uma sociedade autenticamente humana é organizada pela freio moral garantido pela vergonha.
Pois bem, quando uma "elite" desprovida dessa vergonha exclui e humilha o povo, a coletividade se organiza do jeito que sobra: pelo medo da violência de seus excluídos.
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