Quinta-feira, Maio 27, 2004
Uma viagem de iniciação
sem proselitismo político
LUIZ ZANIN ORICCHIO
AGÊNCIA ESTADO
Parece destino inevitável de "Diários de Motocicleta" ser percebido como rito de iniciação política de Che Guevara. No entanto, esse mecanicismo biográfico tende mais a reduzir que a enriquecer a leitura do filme.
Certo, há mais do que mera inquietação juvenil nesse fato de sair pela estrada com pouco ou nenhum dinheiro no bolso, a bordo de uma moto antiquada, que apenas o senso de humor poderia batizar de La Poderosa.
No caminho, a dupla vê muita coisa. Convive com a dificuldade material e pode observar como os pobres e os índios costumam ser tratados na América. É, de fato, uma viagem de iniciação, mas sem nenhum proselitismo político. Aliás, o que mais emociona no filme de Walter Salles é exatamente a sobriedade, a maneira, digamos assim, não "ideológica" como trata essa fase de juventude do futuro guerrilheiro. Assim, apenas a má vontade para com o filme o colocaria numa relação simplista de causa e efeito do tipo: Ernesto viu a injustiça social, portanto pegou em armas e tornou-se o Che.
A história é menos linear. Ernesto Guevara de la Serna, então um estudante de medicina de 23 anos, e seu companheiro de estrada, Alberto Granado, um bioquímico de 29, saíram da Argentina tomando o rumo do Sul e ingressaram no Chile pela Patagônia. Subiram o país, entraram no Peru e chegaram até a Venezuela, quando terminou a viagem da dupla. Granado ficou por lá e Ernesto voltou a bordo de um avião de carga (transportador de cavalos de corrida) que fez escala em Miami antes de voltar a Buenos Aires.
O filme que Walter Salles tira dos dois relatos - o de Ernesto Guevara e o de Alberto Granado - aponta para alguma coisa além dessa trajetória. Como Salles tem dito com freqüência em entrevistas, surge desse road movie uma dupla percepção dos dois personagens principais, mas de Ernesto em particular: primeiro, ele intui que existe uma unidade cultural da América Latina, em especial aquela que ele percorre, a de colonização hispânica. Segundo, que há outro fio ligando povos e que atravessa fronteiras - a imensa disparidade social. "Há muita injustiça", murmura Ernesto quase no final da história. E há, portanto, todo um caldo de cultura propício ao comprometimento político, em especial quando se pensa no contexto da época, início dos anos 50, quando a guerra fria vive no rescaldo da 2ª. Guerra Mundial.
De modo que "Diários de Motocicleta" se instala nessa situação dupla. Sabemos que se trata do futuro Che, mas no momento ele não é o Che, nem sequer um proto-Che, por assim dizer. Como nada é explícito, ou forçado, o cineasta evitou a todo custo as referências icônicas óbvias, como seria, por exemplo, vestir o personagem com a boina que faria parte do modelito consagrado de Che Guevara a partir da foto famosa de Alberto Korda.
Essa sobriedade passa pelas atuações contidas (e por isso mesmo consistentes) de Gael García Bernal, como Ernesto, e Rodrigo de la Serna, no papel de Alberto. Esse sentido da interpretação exata, sem sobra nem falta, está perfeitamente dentro do espírito geral do filme, de feitio clássico, mas um classicismo cheio de densidade e verdade, que em momento nenhum resvala para o academicismo. Pelo contrário, o que se tem na tela é material vivo, orgânico, pulsante. E que se torna ainda mais presente e pungente pela inserção de cenas documentais, com as imagens dos índios que a equipe encontra em seu caminho. Outro exemplo é o pequeno guia de Machu Picchu, representando a si próprio. Ele é um desses meninos que ganham alguns trocados explicando aos turistas as atrações, ocupação que existe no Peru na Bolívia, no Brasil, em qualquer lugar onde a pobreza faz com que crianças sejam obrigadas a trabalhar para ajudar suas famílias.
O Ernesto Guevara que aparece no filme não é de modo algum um rapaz exemplar, como sonham as mães, ou um xiita leninista que irá alimentar o sonho da revolução mundial. Pelo contrário. É apenas um jovem aventureiro, que tem o hábito de ler e de escrever, gosta de futebol, sofre de asma e às vezes bebe demais. A ponto de provocar distúrbio em um baile popular, quando se entusiasma por uma mulher casada, sob as vistas do marido. Em algum ponto do seu diário, Ernesto anota: "Não cortejar mulheres do povo". Poderia se acrescentar: em especial quando o marido estiver por perto.
Mas, de qualquer forma, Ernesto e Alberto não são dois mochileiros típicos. Destinam-se a um leprosário no Peru, onde ajudarão no atendimento aos doentes e onde acontecem algumas das cenas mais interessantes do filme. E aí sim, temos a presença de atos simbólicos humanitários, como quando os dois se recusam a vestir luvas de borracha para cumprimentar os enfermos.
E é nesse ambiente que acontece a seqüência emblemática, ligeiramente modificada no filme em relação ao relato em livro. A sede do leprosário fica numa das margens do rio, o dormitório dos doentes na outra. Na noite do seu aniversário, Guevara, bêbado, lança-se ao rio (é o Amazonas) e o atravessa a nado rumo à outra margem. É com os doentes, com os desvalidos, que ele deseja comemorar.
Bem, há aí alguma coisa a ser notada. Ritos de passagem são assim mesmo. Em momentos cruciais da vida, definem em que margem se vai ficar. Mesmo que hoje em dia tudo pareça condenar esse tipo de raciocínio binário e excludente (ou isto ou aquilo) em certas ocasiões, e em alguns assuntos, é preciso mesmo optar. Não se pode ter tudo, o tempo todo, o que é um desejo infantil. Nem é possível ficar a vida inteira em cima do muro, embora o Brasil não seja o país mais indicado para se fazer esse tipo de observação.
De modo que "Diários de Motocicleta" procura dar conta de um trecho das vidas de dois jovens, mas também de algumas rupturas que nelas se processam. A maneira nada ideológica ou proselitista como Walter Salles conduz esse processo apenas engrandece o filme. E torna plena de sentido a afirmação de Guevara em seu diário: "A pessoa que tomou essas notas morreu no dia em que pisou novamente o solo argentino". No fim da viagem, vem a constatação da ruptura e da transformação. O que fará de uma como da outra é uma nova história. Dessa, o filme não trata.
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Quinta-feira, Maio 20, 2004
Le Cirque Bleu - Marc Chagall
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Cultura da paz
Em artigos exclusivos, especialistas tratam dos princípios, valores e estratégias para o desenvolvimento de programas e projetos de educação para um mundo mais humano e sem violência
Carlos Alberto Emediato é diretor da Rede Global de Educação para a Paz
(...)
Entre as numerosas contribuições de que já dispomos para colocar em cena uma pedagogia humanizante, destacamos os sete saberes necessários para se ensinar no século 21, do professor Edgard Morin, que propõe uma verdadeira transformação do nosso pensar:
1. as cegueiras do conhecimento - o erro e a ilusão;
2. os princípios do conhecimento pertinente;
3. ensinar a condição humana;
4. ensinar a identidade terrena;
5. enfrentar as incertezas;
6. ensinar a compreensão;
7. a ética do gênero humano.
Num encadeamento sistêmico de singular perspicácia, esses saberes orientam a redefinição salutar das relações consigo mesmo, com o outro e com o universo. Outra proposta nos chega pelo Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21, presidida por Jacques Delors, que destaca quatro eixos ou pilares por meio dos quais garantir que todas as pessoas, grupos e comunidades possam desenvolver suas capacidades, talentos e aspirações:
1. aprender a conhecer;
2. aprender a viver junto;
3. aprender a fazer;
4. aprender a ser.
O programa socioeducativo A Paz Pede Parceiros, da Associação Palas Athena, que é realizado em praças, parques e espaços públicos, também se encontra nesta vertente. Ele congrega artistas plásticos, educadores, artesãos, atores, poetas e agentes comunitários em ações interativas com o público atendendo a quatro objetivos:
1. simplicidade voluntária - evitar o supérfluo e o desperdício;
2. ética solidária - promover a arte do convívio;
3. cidadania responsável - participar na gestão do bem comum e do espaço público;
4. valorização das diferenças - incentivar as diferenças como fonte de riqueza.
Por último, gostaríamos de partilhar a Plataforma para uma Cultura de Paz, oferecida pela professora Therezinha Fram durante sua palestra na Assembléia Legislativa do estado de São Paulo, em 24 de setembro passado. A professora destacou que já há princípios e valores consensuados internacionalmente, sendo necessário agora empregar nosso empenho e criatividade para pô-los em prática. Essa plataforma tem dez ingredientes:
1. saber se aquilo que fazemos conduz à paz e ao bem da humanidade;
2. conhecer as formas de conflito, suas causas e efeitos;
3. promover os direitos humanos, não apenas os cívicos e políticos, mas também os culturais, sociais e ambientais;
4. fortalecer a democracia, na qual a cidadania deve ser significativa e consolidada;
5. avaliar as diferentes formas de exclusão - social, econômica, cultural, religiosa, de gênero, psicológica, moral;
6. pesquisar o que é a cultura humana, a fim de estabelecer critérios para julgar diferenças e semelhanças;
7. estudar as funções do Estado, da sociedade civil, das universidades, das organizações, focalizando a inter-relação e a dinâmica entre eles;
8. fortalecer a Organização das Nações Unidas, um organismo internacional que pode dar conta da diversidade e dos possíveis conflitos entre nações;
9. refletir e se comprometer com os seis princípios do Manifesto 2000 pela Paz;
10. aumentar a percepção de si mesmo, do curso da vida pessoal, familiar, profissional e da comunidade na qual se está inserido.
Na larga estrada da educação para a paz, cujo objetivo é fundar uma cultura vocacionada para a paz, não há modelos a seguir. Cada espaço, comunidade, tradição, cultura terá de buscar no próprio solo as variáveis que podem reconciliar-nos com a vida e suas infinitas possibilidades.
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Domingo, Maio 09, 2004
No próximo ano postarei uam foto minha tirada no Caminho de Santiago. Estou trabalhando, e muito, para que esse desejo se concretize.
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Estava com saudades de vcs!
Fui assistir Kill Bill e adorei as cenas que pareciam mangás.
Ghost in the Shell - Wall Scroll
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E X A U S T A ! ! !
Mas feliz...
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